II
Eu gostava de acreditar que eu tinha fobia social porque nesses cinco minutos que Emma entrou para pegar sua bolsa ou coisa assim a mesa de pedra no pátio da escola parecia tão interessante.Eu olhava em volta. A maioria dos alunos que não tiveram aula no 2º tempo estavam sentados em grupos embaixo das arvores conversando animadamente sobre as férias. A maioria das garotas usavam shorts ou bermudas e estavam esparramadas na grama. Deus, obrigada pelo verão e escola que não tinha regras de vestimenta.
Eu também agradeço por Emma não estar aqui, se não ela já teria me batido e me censurado bem alto pelo olhar indevido para as pernas de Elizabeth.
Bom, Elizabeth era um caso não tão complicado na minha vida que eu preferia evitar o quanto eu pudesse. Mesmo enquanto ela ria mexendo na franja e direcionava aqueles grandes olhos castanhos para outros garotos.
- Sabe o que é uma droga? - perguntei ao sentir Emma se sentar ao meu lado.
- Você não ter coragem de falar com a Elizabe... - ela respondeu jogando a mochila violentamente na mesa mexendo organizando seus pertences.
- Não - a interrompi - eu ia dizer que ter amigos um ano mais velhos que você só é legal até você estar no 2º ano.
Ela desistiu da bolsa e olhou em volta. Agora eramos só eu, ela e os colegas dela. Não que eu fosse um monstro que se escondia sempre que alguém sorria pra mim, eu só não tinha a facilidade de Emma, até hoje eu nem sei como somos amigos.
Então Emma sorriu afetada como ontem no carro.
- Essa é a oportunidade perfeita! - ela buscou o papel no bolso da calça - Item 3, fazer amizade com quem nunca falamos antes. Você tem 40 minutos até a próxima aula - Emma sorriu e se levantou levando a mochila embaixo do braço.
- Emma! - chamei e ela me olhou receosa - O que...aconteceu ai?
- A mochila? - ela olhou o objeto - Arrebentou a alça, excesso de peso, eu acho - e deu ombros voltando a andar.
Eu ia perguntar um longo "Como?" já que ainda era o segundo dia de aula e eu só tinha um caderno e um estojo na mochila, mas Emma era do tipo que teria uma casa cheia de souvenirs, enfeites de louça e presentinhos da loja de 1,99.
E enquanto eu chegava nessa conclusão idiota eu pude ouvir um longo "Oi" de Emma atrás de mim. Olhei o celular, ok, tenho mais trinta e cinco minutos, que a procura comece AGORA.
Eu nunca me esqueci de uma aula de sociologia que tivemos no 2º semestre do ano passado (Eu não gostava de filosofia e nem sociologia pela matéria mas você tem que admitir que a maioria dos professores são gênios) que o professor disse que quando não conhecemos ninguém a primeira coisa que fazemos é olhar ao redor e ver com quem temos algo em comum que possa render uma conversa não-tão-forçada.
Ou alguma coisa assim.
Eu passei os olhos pelos grupos, eles já pareciam completos sem mim. Até eu ver na 5ª mesa a direita, Clarie Lewis. Diziam que de inteligente ela só tinha o sobrenome (tipo C.S. Lewis, eu nunca li As Crônicas de Nárnia, mas os filmes eram bons.) mas ela tinha um caderno aberto e uma cara de duvida e qual era minha melhor qualidade? Diziam que eu sabia ensinar as pessoas.
Enquanto eu andava até ela eu passei pela sala da diretoria, do lado de fora ela tinha um vidro preto e com a claridade eu pude me ver nele. Eu não era loiro e gostoso com Emma. Com gostoso eu quero dizer não esquelética e nem gorda, apenas saudavel, como minha mãe diria. Eu me peguei procurando por Emma na multidão e eu adorava sua postura despreocupada e de como ela abaixava a cabeça pra rir e como sua voz subia quando ela ficava sem graça.
Eu era só mais um cara que acordava e jogava o cabelo castanho pra cima, no que algumas garotas chamavam de bagunçado de propósito e eu de preguiça em levantar os braços. Que tinha um estoque de hoodies e camisas de flanela, que usava a mesma calça por até 5 dias e óculos pra ler. Ah, e que se sente muito narcisista se descrevendo.
Mais cinco minutos a menos.
Eu me sentei a frente de Clarie e soltei um "hey" que durou aproximadamente 1 segundo. Ela respondeu com um outro estendido. Vamos lá revistas da Emma que eu lia quando não tinha nada pra fazer, o que isso quer dizer?
- Então, parece que você esta tendo dificuldade com... alguma coisa - eu comentei estendendo o olhar para o caderno dela. Era hora de deixar meu interesse sexual pra outra hora que não envolvesse um desafio proposto por Emma sem ela nem saber. Ou ela sabia?
- Um pouco, é que ano passado eu fui ótima em matemática porque eu queria impressionar um garoto, e esse ano minha mãe me inscreveu em matemática avançada, acho que ela achou que isso poderia ser a luz no fim do túnel sabe? - ela sorriu triste.
Minha mãe não decidia minhas aulas desde...nunca. Mas Clarie parecia meio abalada pela idéia.
- E agora você quer impressionar ela?
- Claro! A unica reunião minha que ela veio foi a do ano passado porque o Sr. Riley ligou pra ela pra falar da minha mudança. E também ia calar a boca de muitos idiotas.
- Claro - eu me aproximei mais dela escorregando pelo banco gelado de pedra - Bom, eu acho que duas cabeças pensam melhor que uma.
Ela levantou os braços para prender o longo cabelo castanho deixando seus peitos comprimidos por uma regata branca bem a mostra.
- Você até que não é tão esquisito quanto eu pensava - ela sorriu me olhando de cima a baixo.
- Obrigada, eu acho. Er... Você tem alguma calculadora? Eu sou péssimo em contas.
- Claro! - ela se abaixou para pegar abrir a bolsa e isso fez a renda se seu sutiã aparecer. Quando ela percebeu que eu estava reparando ela apenas riu. Sabe, a Emma podia ser assim as vezes.
- Eu só tenho no celular. Aproveita pra deixar seu número.
- Com certeza! Quer dizer, se eu conseguir entender sobre matemática avançada e você tiver alguma duvida...
- Isso, agora, vamos começar?
- Acho que não é tão difícil assim - comentei enquanto Clarie fechava o caderno.
- Não quando você é o professor - ela respondeu mais próxima do que eu lembrava - A gente pode marcar de estudar mais vezes.
- Oi Clarie! - Emma segurou firme meu ombro - Eu vou ter que roubar o Andrew, agora nós temos que ir pra aula de Filosofia e vamos estudar Blaise Pascal! Não é excitante?
- Acho que sim - Clarie respondeu.
- É, agora, vamos Andy? - Emma sorria de um jeito estranho pra mim.
- A gente se fala depois Clarie - joguei minha mochila nos ombros e levantei.
Eu acompanhei Emma até a escola em silencio.
- Aquilo foi rude - admiti.
- Tá bom, e se aproximar de uma menina pra trocar uma explicação por um boquete não é rude.
- O QUE?
- Não, acho que não, porque você não deve ter sido o primeiro.
- Então, você fazendo amizade com o Peter, qual foi? Piadas por cigarros? Aé! Você não consegue - e fiz um som de vomito.
Ela parou de andar e virou bruscamente, eu quase esbarrei nela. Não que esse fosse o melhor lugar pra discutir. Em frente a sala da nossa próxima aula, ao lado direito tínhamos a entrada da secretário, do lado esquerdo tínhamos alguns dos troféus da escola em um armário de vidro, ao nosso redor vários alunos trocando de sala.
- Como você é idiota Andrew!
- Como você é...preconceituosa! - ela me olhou incrédula por um instante - É, você nem conhece a Clarie direito.
- E você deve conhece-la muito bem.
- Eu ainda não entendo porque estamos discutindo.
- Porque eu nunca deveria ter te envolvido nos meus planos!
- Não mesmo. Agora você vê como essa idéia é idiota?
Ela balançou a mão no ar e entrou na sala.
O corredor já estava quase vazio, mas se eu entrasse eu seria capaz de jogar uma carteira em alguém.
- Senhor Litz! Você e a senhorita Arch aqui dentro agora! - convocou a Sr. Anderson aparecendo na porta da secretária.
Então eu fiz a unica coisa racional que eu podia, eu soquei o armário dos troféus.
- Andy - Emma disse baixo aparecendo na porta - AH MEU DEUS ANDREW!
E ela me empurrou pra dentro da secretária enquanto minha calça ia sendo tingida por vermelho.
A ultima vez que eu estive na diretoria foi há quatro anos, quando eu entrei na escola e eles continuavam com a mesma parede verde vomito.
Emma estava sentada do meu lado, e suas mãos não paravam e ela lutava contra um sorriso, talvez ela estivesse lembrando da mesma coisa que eu.
Eu conheci a Emma na diretoria quando ela entrou arrastada por uma professora ao lado de uma menina com o cabelo embaraçado do lado esquerdo. Emma tinha perdido a paciência e não satisfeita em ter colado chiclete no cabelo da "coleguinha" ainda bagunçou ele ali. Ela se sentou ao meu lado com os cabelos castanhos avermelhados bagunçados e me olhou, meu pai tinha arrepiado todo meu cabelo em um moicano estranho como o de um cara que ele viu em uma revista pra eu me sentir mais "confiante" no primeiro dia, eu me sentia ridículo com ele e uma garota me olhando.
- Seu cabelo é legal - ela comentou.
- Você vai colar chiclete nele?
Ela riu e eu ainda acho que deveria ter ignorado ela.
E aqui estávamos nós de novo, os mesmos olhos arrependidos me olhando.
- Eu sinto muito - Emma sussurrou.
Eu continuei fitando o sangue se espalhar pela toalha enrolada no meu braço até a Sra. Anderson chamou.
- Sua mãe chegou Andrew, vamos logo.
Eu joguei a mochila no ombro do braço inteiro e andei pelo corredor enquanto a Sra. Anderson me apressava.
Por fim, eu levei cinco pontos na mão próximo ao dedinho e alguns band-aids espalhados pelos pequenos cortes no meu braço.
- Isso tem a ver com a Emma? - minha perguntou enquanto fazia uma curva para entrar na nossa rua.
- Um pouco, indiretamente.
- Essa menina vai acabar te matando! Sabe, eu gosto dela, mas ela é imprevisível. Você merece uma garota mais calma como... A Liz! É, ela nunca mais veio em casa, vocês eram tão bonitinhos juntos... - ela parou o carro e eu desci dizendo que estava apertado.
Se eu não estivesse tendo que evitar "movimentos bruscos" eu teria pulado com o carro em movimento.